Entrevista: Frederick Noronha
angico – Quando seus pais vieram para o Brasil?
Frederick Noronha – Eles passaram pouco menos de uma década, no Brasil. Provavelmente chegaram aí em 1956 ou 1957. Meu pai tinha um emprego na firma de engenharia estadunidense (Kaiser) que tinha acabado de implantar uma indústria de aço na Índia (Jamshedpur, onde ele trabalhava) e estava implantando uma nova indústria (Cosipa) em Cubatão, um distrito industrial, acho. Nunca estive aí. Adoraria visitar… mas só se tivesse uma boa “desculpa” (quero dizer, algum trabalho significativo a fazer, e não somente colaborar para o aumento das emissões de gases de efeito estufa).
a – Quando e onde (em que cidade) você nasceu?
FN – Em 26 de dezembro de 1963, pouco depois da meia noite. Em Santos, São Paulo. Eu so Paulista
a – Quando vocês deixaram o Brasil? Você chegou a estudar alguma coisa (escola), aqui? Você fala português?
FN – Por volta de 1966 ou 1967. Eu tinha pouco mais de três anos e, portanto, ainda não estava na escola, quando cheguei aqui [em Goa]. Infelizmente eu não falo português, embora tivesse gostado muito! Fiz duas ou três tentativas de estudar o idioma em casa, quando de volta a Goa. Mas não sou bom em línguas
a – Há quanto tempo você está em Goa?
FN – Desde então. Com breves temporadas para estudos na Alemanha e na Suécia. E visitas a partes da Ásia, Finlândia e Uganda.
a – Quando você conheceu o Linux?
FN – Ouvi falar dele em 1993 ou 1994. Fiquei imediatamente convencido pela ideia de compartilhamento de código, conhecimento, software. Vi-o, talvez, em 1995. Ajudei a iniciar um LUG (grupo de usuários de GNU/Linux) por volta de fevereiro de 2000. Mas só comecei a usá-lo, talvez, uns dois anos depois. Desde então, nunca mais olhei para trás. Utilizo-o para praticamente 100% de minhas necessidades computacionais (exceto quanto estou no computador de outra pessoa, num cybercafé, ou tenho algum equipamento que não pode trabalhar com o GNU/Linux).
a – Foi você quem cunhou a sigla FLOSS? Esta pergunta se deve ao fato de que, antes de lê-la em suas postagens, eu só conhecia a sigla FOSS.
FN – Oh, não; você está me creditando mais inteligência do que é devida
.
O crédito por cunhar o termo FLOSS deverá, talvez, ir para Rishab Aiyer-Ghosh
De minha parte, eu o usei (e ainda o uso) repetidamente porque acredito que, primeiro, este é um termo preciso; e segundo, o que é pior, a tentativa de remover o importante ‘L’ (ou o termo Libre) dela parece ser devido a tendências políticas contra um valor que é crucial para o FLOSS.
a – Você é programador/desenvolvedor?
FN – Não. Sou incapaz de escrever uma única linha decente de código. Estou descobrindo o KTurtle com meu filho de cinco anos. Ele provavelmente sabe mais que eu!
Quando meu LUG queria mostrar o quão fácil era a instalação de uma distro, eles faziam um demo de mim. Em outras palavras, eu não conseguia nem mesmo fazer uma instalação decente de uma distro GNU/Linux. Mas, por outro lado, eu sou um usuário bastante amadurecido do FLOSS, sei como desenvolver o conhecimento nos jovens, encorajando-os a experimentar o software e ler (embora eu não tenha a experiência em mim mesmo), e até já hospedei uma visita de Richard M Stallman a Goa! No passado (um pouco menos ativo, agora), eu escrevia muitas histórias relacionadas com o FLOSS, ligadas a Goa, à Índia e a partes da Ásia (e também algumas da África).
a – Além de trabalhar como jornalista, você está engajado em algum tipo de ensino, digo, você é professor?
FN – Escritores e jornalistas são professores de alguma forma, não? Com a exceção de que nossa sala de aula envolve centenas ou, às vezes, milhares de pessoas cujas faces não podemos ver
.
Mais seriamente, não, eu não sou professor.
Mas fotografo (<http://www.flickr.com/photos/fn-goa/>, onde mais de 20.000 fotos estão compartilhadas); faço alguns vídeos; publico livros (<http://goa1556.goa-india.org>); faço edição; e também mexo com um pouco de design. Meus hobbies são livros e ciclismo. Isto, além de cuidar das crianças, me mantém bastante ocupado.
a – Quais áreas do FLOSS você valoriza mais?
FN – Sua capacidade de compartilhamento de conhecimento e experiência é vital. Ela tem uma função chave a desempenhar nas escolas, universidades e na educação em geral. Ela pode tornar o governo mais eficaz, e as sociedades mais participativas. Eu acredito que as ferramentas da Web 2.0 (distribuída, colaborativa) foram largamente produzidas a partir da ideologia de compartilhamento do FLOSS, da criação em conjunto, e sem haver uma distinção clara entre produtor e desenvolvedor.
a – Quais são, na sua opinião, as consequências mais importantes da adoção do FLOSS pelas pessoas, pelas organizações, pelos governos?
FN – Eficiência, capacidade de financiamento de software (crucial para países como os nossos), um campo de atividades equilibrado para sociedades "pobres em recursos, ricas em talentos" nos países BRIC, por exemplo, o desafio aos monopólios. Acima de tudo, a alternativa clara que nos mostra que a ALTERNATIVA FUNCIONA, às vezes, melhor que a "coisa real" (considerando que a Micro$oft é a "coisa real", aqui!).
a – Qual a sua distro favorita, e quais os programas que você mais usa? Gostaria que você listasse o máximo que puder lembrar e, se possível, juntamente com o objetivo do uso.
FN – Para responder: meu técnico decide por mim! Eu tenho este estudante de 22 anos que aprendeu sozinho o GNU/Linux, através da leitura de meus (pouco lidos) livros. E ele decide o que é melhor
Assim, eu tenho uma opção limitada.
Atualmente, é a Ubuntu 8.10, ou o que for mais recente. Num outro computador, é a Mint. Anteriormente era a Debian (minha opção). Antes dela, Mandriva e Mandrake. Antes, ainda, a Red Hat, que foi muito popular na Índia, no passado.
Minha própria preferência seria Debian – no campo político, claro. Ela acredita fortemente na Liberdade (com L maiúsculo
). Mas ela é um pouco difícil para se atualizar e instalar programas… talvez eu possa voltar a ela.
Em termos de programas usados:
- Jstar (para processamento de textos, digitação de reportagens e artigos)
- Firefox (para toda a minha navegação)
- Flock (às vezes para navegação, para transmissão de entradas de blog)
- Scribefire (extensão do Firefox, para rápida composição de blogs)
- Lyx (para a criação do texto interno de meus livros, eu não consigo fazer o design das capas!)
- Inkscape (para criação de cartões de visita e de pôsteres para o <http://goa1556.goa-india.org>)
- Gimp, para edição de fotos
- Gqview, para visualizar fotos, selecioná-las e classificá-las
- Toneladas de jogos infantis, especialmente o Gcompis e várias versões de xadrez para meus filhos, Aren, de 5 anos, e Riza de 10.
- Take Screenshot (para tirar fotos de telas)
- Tomboy Notes (fixador de notas [espécie de post-it virtual] para minha área de trabalho)
- Kturtle e TuxPaint, para meu garotinho de cinco anos brincar
- Flickr Uploader e F-Spot para transferência de fotos e para baixá-las (da câmera)
- gFTP, quando necessário para realizar FTP
- gTwitter (mais frequentemente, uso a adição do Firefox para o Twitter <http://twitter.com/fn>
- Licq
- Mozilla Thunderbird, para correio
- Gnumeric
- Adobe Reader para o Linux
- OpenOffice
- Scribus (acho-o ainda um pouco complicado, mas o Inkscape é bom)
- BMPx, para rádio por Internet
- Pidgin, para bate-papo
- Audacity, eventualmente
- Synaptic, gerenciador de pacotes [do Ubuntu/Debian]
Sou muito grato a todas estas ferramentas (e a quaisquer outras mais que tenha esquecido) e às pessoas que as criaram, por toda a produtividade adicional que elas me proporcionaram. Procuro por formas de recompensá-las!