Sites de relacionamentos

Durante uma visita ao site do Richard Stallman, deparei-me com um link para este artigo no site do The Guardian, com a chamada “Don’t use Facebook” (não use o Facebook). Não pude deixar de traduzi-lo, especialmente para mostrá-lo a meus filhos e seus amigos, mas também para compartilhar e aumentar a abrangência de sua mensagem, que creio ser fundamental para a manutenção dos direitos pessoais à privacidade e à liberdade.

Segue, pois, o artigo traduzido na íntegra. Boa leitura! E boas reflexões!

Nota: O original deste artigo pode ser lido aqui.

Esta tradução é autorizada
© Guardian News & Media 2008

O Facebook tem 59 milhões de usuários – e outros 2 milhões se juntam a cada semana. Mas você não encontrará Tom Hodgkinson fornecendo voluntariamente suas informações pessoais – não agora, que ele conhece a política das pessoas por trás do site de criação de redes sociais

Tom Hodgkinson
The Guardian, segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

As correções a seguir foram apresentadas na coluna Correções e esclarecimentos do Guardian, na quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O entusiasmo da comunidade de inteligência dos EUA por inovações de alta tecnologia, depois do 11 de setembro, e a criação do In-Q-Tel, seu fundo de capital de risco, em 1999, foram anacronicamente ligadas no artigo abaixo. Uma vez que o 11 de setembro ocorreu em 2001, ele não poderia ter levado à criação do In-Q-Tel dois anos antes.

Eu desprezo o Facebook. Este negócio americano de enorme sucesso se descreve como “um utilitário social que conecta você com as pessoas em torno de você”. Mas espera aí. Por que, neste mundo de Deus, eu preciso de um computador para me conectar com as pessoas em volta de mim? Por que devem meus relacionamentos ser mediados pela imaginação de um punhado de supergênios na Califórnia? Que é que há de errado com o barzinho?

E será que o Facebook realmente conecta as pessoas? Será que ele, na verdade, não nos disconecta, já que em vez de fazer alguma coisa agradável, como conversar e comer e dançar e beber com meus amigos, eu simplesmente estou enviando pequenas notas sem gramática e fotos fantásticas, no ciberespaço, para eles, enquanto permaneço acorrentado à minha mesa? Um amigo me disse, recentemente, que passou uma noite de sábado em casa, sozinho, no Facebook, bebendo em sua mesa. Que imagem deprimente. Longe de nos conectar, o Facebook, na realidade, nos isola em nossos computadores.

O Facebook apela para um tipo de vaidade e de auto-importância em nós, também. Se eu puser uma foto bacana minha, com uma lista de minhas coisas favoritas, posso construir uma representação artificial de quem eu sou, para obter sexo ou aprovação (“Gosto do Facebook”, disse-me um outro amigo. “Consegui uma transa com ele”). Ele também encoraja uma competitividade perturbadora, em torno da amizade: parece que com amigos, hoje, a qualidade não conta em nada, e a quantidade é tudo. Quanto mais amigos você tem, melhor você é ou está. Você é “popular”, no sentido mais adorado nas escolas americanas de ensino médio. Testemunha-o o artigo de capa da revista Facebook, da Dennis Publishing: “Como duplicar sua lista de amigos”.

Parece, no entanto, que eu estou muito sozinho, em minha hostilidade. No momento desta escrita, o Facebook afirma ter 59 milhões de usuários ativos, incluindo 7 milhões no Reino Unido, o terceiro maior consumidor do Facebook, depois dos Estados Unidos e do Canadá. Estes 59 milhões de tolos, dos quais todos voluntariamente cederam informações de sua cédula de identidade e de preferências de consumo a um negócio americano do qual eles nada sabem a respeito. Neste exato instante, 2 milhões de novas pessoas se juntam a cada semana. Na razão atual de crescimento, o Facebook terá mais de 200 milhões de usuários ativos, por esta época, no próximo ano. E eu poderia predizer que, se brincar, sua taxa de crescimento se acelerará pelos próximos meses. Como informa seu portavoz, Chris Hughes: “Ele se sedimentou em si mesmo a tal ponto que ficou difícil eliminá-lo”.

Tudo isso teria sido suficiente para me fazer rejeitar o Facebook para sempre. Mas há mais razões para odiá-lo. Muitas mais.

O Facebook é um projeto bem custeado, e as pessoas por trás deste custeio, um grupo de capitalistas de risco, de Silicon Valley [EUA], tem uma ideologia bem pensada que esperam espalhar mundo afora. O Facebook é uma manifestação desta ideologia. Da mesma forma que o PayPal, antes dele, ele é um experimento social, uma expressão de um tipo particular de liberalismo neoconservador. No Facebook, você pode estar livre para ser que você quiser ser, desde que não se importe em ser bombardeado por propagandas das maiores marcas do mundo. Da mesma forma que no PayPal, fronteiras nacionais são coisa do passado.

Embora o projeto tenha sido inicialmente concebido pelo astro dos meios de comunicação Mark Zuckerberg, a face real, por trás do Facebook, é o capitalista aventureiro e filósofo futurista de 40 anos, de Silicon Valley, Peter Thiel. Só há três membros no conselho do Facebook, e eles são Thiel, Zuckerberg e um terceiro investidor, chamado Jim Breyer, de uma firma de capital de risco chamada Accel Partners (mais sobre ele, depois). Thiel investiu 500 mil dólares no Facebook, quando os estudantes Zuckerberg, Chris Hughes e Dustin Moskowitz, de Harvard, o encontraram em São Francisco [EUA], em junho de 2004, logo depois de terem lançado o site. Thiel, agora, possui, presumivelmente, 7% do Facebook, o que, na avaliação atual do Facebook, que é de 15 bilhões de dólares, daria mais de 1 bilhão de dólares. Há muita discussão sobre quem foram, exatamente, os cofundadores originais do Faceboot, mas quem quer que tenham sido, Zuckerberg é o único que premanece no conselho, embora Hughes e Moskowitz ainda trabalhem para a companhia.

Thiel é vastamente respeitado em Silicon Valley e no cenário do capital de risco dos EUA como gênio liberal. Ele é o cofundador e executivo-chefe do sistema bancário virtual PayPal, que ele vendeu ao Ebay por 1,5 bilhão de dólares, tomando 55 milhões de dólares para si mesmo. Ele também dirige um fundo de investimentos de 3 bilhões de libras esterlinas, chamado Clarium Capital Management, e um fundo de capital de risco chamado Founders Fund. A revista Bloomberg Markets chamou-o, recentemente, de “um dos mais bem-sucedidos gerentes de fundos de investimentos do país”. Ele fez dinheiro apostando na elevação dos preços do petróleo e pela acertada previsão de que o dólar enfraqueceria. Ele e seus absurdamente saudáveis colegas de Silicon Valley foram recentemente rotulados de “A Máfia do PayPal”, pela revista Fortune, cujo repórter também observou que Thiel tem um mordomo uniformizado e um supercarro McLaren de 500 mil dólares. Thiel também é mestre no xadrez e intensamente competitivo. Ele é conhecido por varrer as peças do tabuleiro com fúria, quando está perdendo. E não pede desculpas por esta hipercompetitividade, dizendo: “Mostre-me um bom perdedor e eu lhe mostrarei um perdedor”.

Mas Thiel é mais que um simples capitalista esperto e avarento. Ele é um filósofo futurista e ativista neoconservador. Filósofo graduado em Stanford, em 1998 ele ajudou a escrever um livro chamado O Mito da Diversidade, que é um ataque detalhado ao liberalismo e à ideologia multiculturalista que dominou Stanford. Ele afirmou que a “multicultura” levou a uma redução das liberdades individuais. Enquanto estudante em Stanford, Thiel fundou um jornal de direita, ainda em atividade, chamado The Stanford Review – moto: Fiat Lux (“Faça-se a luz”). Thiel é membro do TheVanguard.Org, um grupo de pressão neoconservador baseado na Internet, que foi formado para atacar o MoveOn.org, um grupo de pressão liberal que trabalha na web. Thiel se autoproclama “jeito liberal”.

TheVanguard é mantido por Rod D. Martin, um filósofo-capitalista que Thiel admira grandemente. No site, Thiel afirma: “Rod é uma das lideranças de nossa nação, na criação de novas e necessárias ideias para políticas públicas. Ele possui um entendimento mais completo da América do que a maioria dos executivos têm de seus próprios negócios”.

Esta pequena prova do site deles dará a você uma ideia da visão de mundo deles: “TheVanguard.Org é uma comunidade online de Americanos que acreditam em valores conservadores, no mercado livre e no governo limitado como os melhores meios de se trazer esperança e oportunidades sempre crescentes para todos, especialmente os mais pobres dentre nós”. Seu objetivo é promover políticas que “remodelarão a América e o globo”. TheVanguard descreve suas políticas como “Reaganistas/Thatcheristas”. A mensagem do diretor afirma: “Hoje, nós ensinaremos ao MoveOn [o site liberal], a Hillary e aos meios de comunicação de esquerda algumas lições que eles jamais imaginaram”.

Assim, a política de Thiel não deixa dúvida. E sua filosofia? Eu assisti a um podcast de um discurso que Thiel fez sobre suas ideias para o futuro. Sua filosofia, em suma, é esta: desde o século 17, certos pensadores iluminados têm afastado o mundo do velho estilo de vida inclinado à natureza, e aqui ele cita a famosa caracterização da vida, de Thomas Hobbes, como “horrível, crua e breve”, e em direção a um novo mundo virtual, onde conquistamos a natureza. Agora exite valor em coisas imaginárias. Thiel diz que o PayPal foi motivado por esta crença: de que você pode encontrar valor não em objetos manufaturados de verdade, mas nas relações entre seres humanos. O PayPal foi uma forma de movimentar dinheiro em torno do mundo sem restrições. Bloomberg Markets coloca isto assim: “Para Thiel, o PayPal era tudo com relação a liberdade: ele habilitaria as pessoas a driblar os controles monetários e movimentar dinheiro em redor do globo”.

Claramente, o Facebook é um outro experimento ultra-capitalista: poderia você ganhar dinheiro com amizade? Poderia você criar comunidades livres de fronteiras nacionais – e depois vender Coca-Cola a elas? O Facebook é profundamente sem criatividade. Ele não faz absolutamente nada. Ele simplesmente medeia os relacionamentos que estavam acontecendo de qualquer forma.

O mentor filosófico de Thiel é um tal de René Girard da Universidade de Stanford, proponente de uma teoria do comportamento humano chamada de desejo mimético. Girard considera que as pessoas são essencialmente como ovelhas e copiam umas às outras sem muita reflexão. A teoria também pareceria estar provada como correta no caso dos mundos virtuais de Thiel: o objeto desejado é irrelevante; tudo o que você precisa saber é que seres humanos tenderão a se mover em rebanhos. Daí as bolhas financeiras. Daí a enorme popularidade do Facebook. Girard está sempre presente nos encontros intelectuais de Thiel. O que você não ouve, na filosofia de Thiel, a propósito, é sobre velhos conceitos do mundo real, tais como arte, beleza, amor, prazer e verdade.

A Internet é imensamente apetitosa para neoconservadores como Thiel, porque ela promete um certo tipo de liberdade nas relações humanas e nos negócios, liberdade com relação a incômodas leis nacionais, a fronteiras nacionais e coisas do gênero. A Internet abre um mundo de expansão de livre comércio e de desregulação de mercado. Thiel parece, também, concordar com os paraísos fiscais, e afirma que 40% dos bens do mundo se encontram em lugares como Vanuatu, Ilhas Cayman, Mônaco e Barbados. Eu acho que é certo afirmar que Thiel, como Rupert Murdoch, é contra os impostos. Ele também gosta da globalização da cultura digital, porque ela torna difícil o ataque aos senhores banqueiros: “Você não poderá ver uma revolta de trabalhadores tomar um banco se o banco estiver em Vanuatu”, diz ele.

Se a vida, no passado, era horrível, bruta e breve, então, no futuro, Thiel quer torná-la muito mais longa, e para este fim ele também investiu numa firma que está explorando tecnologias para extensão da vida. Ele firmou um acordo de cessão de 3,5 milhões de libras esterlinas a um geriatra de Cambridge, chamado Aubrey de Grey, que está procurando a chave da imortalidade. Thiel também faz parte do comitê de conselheiros de uma coisa chamada Instituto de Singularidade para a Inteligência Artificial. De seu fantástico site, o seguinte: “A Singularidade é a criação tecnológica de inteligência mais sagaz que a humana. Há várias tecnologias… voltadas para esta direção… Inteligência Artificial… interfaces diretas cérebro-computador… engenharia genética… diferentes tecnologias que, se alcançassem um nível limite de sofisticação, permitiriam a criação de uma inteligência mais sagaz que a humana”.

Assim, de acordo com sua própria admissão, Thiel está tentando destruir o mundo real, que ele também chama de “natureza”, e instalar um mundo virtual em seu lugar, e é neste contexto que nós devemos ver o surgimento do Facebook. O Facebook é um experimento deliberado em manipulação global, e Thiel é uma jovem coisa brilhante, no panteão neoconservador, com predileção por fantasias ultra-tecnoutópicas. Não é alguém a quem eu queira ajudar a se tornar nenhum centavo mais rico.

O terceiro membro do conselho do Facebook é Jim Breyer. Ele é praceiro da firma de capital de risco Accel Partners, que pôs 12,7 milhões de dólares no Facebook, em abril de 2005. No quadro de gigantes ianques tais como Wal-Mart e Marvel Entertainment, ele também é ex-diretor da Associação Nacinal de Capital de Risco (NVCA). Estas são, portanto, as pessoas que estão fazendo as coisas realmente acontecerem na América, porque investem nos novos talentos jovens, os Zuckerbergs e semelhantes. A mais recente rodada de custeio do Facebook foi liderada por uma companhia chamada Greylock Venture Capital, que introduziu a soma de 27,5 milhões de dólares. Um dos parceiros seniores da Greylock é chamado Howard Cox, outro ex-diretor da NVCA, que também está no quadro da In-Q-Tel. E o que é a In-Q-Tel? Bem, acredite ou não (e verifique o site deles), esta é a ala de capital de risco da CIA. Depois do 11 de setembro, a comunidade de inteligência dos EUA ficou tão excitada com as possibilidades de novas tecnologias e das inovações sendo feitas no setor privado, que em 1999 criou seu próprio fundo de capital de risco, a In-Q-Tel, que “identifica e forma parcerias com companhias que desenvolvem tecnologias de ponta, para ajudar a levar estas soluções para a Agência Central de Inteligência e à mais abrangente Comunidade de Inteligência (IC) do EUA para adiantar suas missões”.

O departamento de defesa dos EUA e a CIA adoram tecnologia, porque ela facilita a espionagem. “Nós precisamos encontrar novas maneiras de deter novos adversários”, disse o secretário de defesa Donald Rumsfeld, em 2003. “Precisamos dar o salto para a era da informação, que é o fundamento crítico de nossos esforços de transformação”. O primeiro chefe da In-Q-Tel foi Gilman Louie, que serviu no quadro da NVCA com Breyer. Uma outra figura chave na equipe da In-Q-Tel é Anita K. Jones, ex-diretora de pesquisa e engenharia de defesa para o departamento de defesa dos EUA, e – com Breyer – membro do quadro da BBN Technologies. Quando ela deixou o departamento de defesa dos EUA, o senador Chuck Robb lhe pagou o seguinte tributo: “Ela reuniu as comunidades militares tecnológica e operacional para a produção de planos detalhados para a manutenção do domínio dos EUA no campo de batalha, no próximo século”.

Agora, mesmo que você não aceite a ideia de que o Facebook é um tipo de extensão do programa imperialista americano cruzado com uma ferramenta de coleta maciça de informação, não há como negar que, como negócio, ele é pura mega-genialidade. Alguns especialistas da net sugerem que sua avaliação em 15 bilhões de dólares é excessiva, mas eu argumentaria que tanto seria muito modesto. Sua escala é realmente estonteante, e o potencial para crescimento é virtualmente ilimitado. “Nós queremos que todos sejam capazes de usar o Facebook”, diz a voz impessoal do Grande Irmão, no site. Aposto que sim. É o enorme potencial do Facebook que levou a Microsoft a comprar 1,6% por 240 milhões de dólares. Recente rumor afirma que o investidor asiático Lee Ka-Shing, tido como o nono homem mais rico do mundo, comprou 0,4% do Facebook por 60 milhões de dólares.

Os criadores do site precisam mexer muito pouco no programa. Na maior parte, eles simplesmente sentam e observam, à medida que milhões de viciados no Facebook voluntariamente enviam detalhes de suas identidades, fotografias e listas de preferências de consumo. Depois de recebida esta vasta base de dados de seres humanos, o Facebook simplesmente tem de vender a informação de volta aos anunciantes, ou, como Zuckerberg colocou, numa recente postagem de blog, “tentar ajudar as pessoas a compartilhar informações com seus amigos sobre as coisas que eles fazem na web”. E de fato, isto é precisamente o que está acontecendo. Em 6 de novembro do último ano, o Facebook anunciou que 12 marcas globais entraram no time Elas incluíram Coca-Cola, Blockbuster, Verizon, Sony Pictures e Condé Nast. Todas treinadas na bosta do marketing da mais alta ordem, seus representantes fizeram empolgados comentários nas seguintes linhas:

“Com os anúncios do Facebook, nossas marcas podem se tornar parte da maneira com que os usuários se comunicam e interagem no Facebook”, disse Carol Kruse, vice-presidente de marketing interativo global da Coca-Cola Company.

“Vemos isto como uma maneira inovadora de cultivar relacionamentos com milhões de usuários do Facebook, permitindo que eles interajam com o Blockbuster de formas convenientes, relevantes e recreativas”, disse Jim Keyes, presidente e chefe-executivo da Blockbuster. “Isto está além da criação de impressões para anúncios. É uma questão de participação do Blockbuster na comunidade do consumidor, de forma que, em resposta, os consumidores se sintam motivados a compartilhar os benefícios de nossa marca com seus amigos”.

“Compartilhar” é o dizer do Facebook para “anunciar”. Cadastre-se no Facebook e você se tornará um anúncio caminhante e falante gratuito para a Blockbuster ou Coke, exaltando as virtudes destas marcas para os seus amigos. Nós estamos divisando a co-modificação das relações humanas, a extração de valores capitalistas a partir das amizades.

Agora, por comparação com o Facebook, os jornais, por exemplo, começam a parecer desesperadamente desatualizados como modelo comercial. Um jornal vende espaço de propaganda para negócios que buscam vender coisas a seus leitores. Mas o sistema é muito menos sofisticado do que o Facebook por duas razões. Uma é que os jornais têm de lidar com a despesa incômoda de pagar a jornalistas para prover o conteúdo. O Facebook obtém seu conteúdo de graça. A outra é que o Facebook pode direcionar a propaganda com muito maior precisão do que um jornal. Admita no Facebook que seu filme favorito é Isto É Spinal Tap, que quando um filme no mesmo estilo for produzido, você poderá ter certeza de que eles estarão enviando anúncios na sua direção.

É verdade que o Facebook, recentemente, entrou em saia justa com seu programa de propaganda Beacon. Os usuários foram notificados de que um de seus amigos fez uma compra em certas lojas online; 46.000 usuários acharam que este nível de propaganda era intrusivo e assinaram uma petição chamada “Facebook! Pare de invadir minha privacidade!” para dizê-lo. Zuckerberg se desculpou no blog de sua companhia. Ele escreveu que eles, então, tinham mudado o sistema de “optar por sair” para “optar por entrar”. Mas eu suspeito que esta rebeliãozinha sobre ser tão cruelmente transformado em commodity será logo esquecida: afinal, houve um clamor nacional pelo movimento das liberdades civis, quando a ideia de uma força policial foi aventada no Reino Unido, em meados do século 19.

E mais: vocês, usuários do Facebook, já leram realmente a política de privacidade? Ela diz a você que você não tem muita privacidade. O Facebook finge ser expressão da liberdade, mas não estará ele, realmente, mais para um regime totalitário virtual ideologicamente motivado, com uma população que muito brevemente excederá a do Reino Unido? Thiel e o resto criaram seu próprio país, um país de consumidores.

Agora, você pode, como Thiel e outros novos mestres do ciberverso, achar este experimento social tremendamente excitante. Aqui, pelo menos, se encontra o estado de Iluminação tão desejado desde que os Puritanos do século 17 navegaram em direção à América do Norte, um mundo onde todos são livres para se expressarem como querem, de acordo com quem esteja observando. As fronteiras nacionais são uma coisa do passado e todos se esbaldam juntos no espaço virtual sem restrições. A natureza foi conquistada através da engenhosidade ilimitada do homem. Sim, e você pode decidir enviar todo o seu dinheiro ao gênio investidor Thiel, e certamente você estará aguardando impacientemente pela flutuação pública do ininterruptível Facebook.

Ou você pode refletir e concluir que não quer, realmente, ser parte deste programa pesadamente custeado para criar uma república virtual global, onde seu próprio eu e seus relacionamentos com seus amigos são convertidos em commodities à venda para gigantes marcas globais. Você pode decidir que não quer ser parte desta proposta de assunção de controle do mundo.

De minha parte, vou sair desta coisa toda, permanecer tão desplugado quanto possível e gastar o tempo que vou poupar não indo ao Facebook fazendo alguma coisa útil, como ler livros. Por que eu quereria gastar meu tempo no Facebook, quando ainda não li Endymion, de Keats? E quando há sementes a serem plantadas no meu próprio quintal? Não quero me separar da natureza. Quero me reconectar a ela. Dane-se o ar-condicionado! E se eu quiser me conectar com as pessoas à minha volta, vou me voltar para uma velha peça de tecnologia. Ela é gratuita, é fácil e oferece uma experiência individual única, no compartilhamento de informações: chama-se falar.

A política de privacidade do Facebook
Só por diversão, tente substituir pelas palavras ‘Grande Irmão’ sempre que você ler a palavra ‘Facebook’

1 Nós levaremos anúncios até você

“Quando usa o Facebook, você pode configurar seu perfil pessoal, criar relacionamentos, enviar mensagens, realizar buscas e consultas, formar grupos, configurar eventos, adicionar aplicativos e transmitir informações através de vários canais. Nós coletamos estas informações, de forma que possamos fornecer a você o serviço e oferecer funcionalidades personalizadas”.

2 Você não pode excluir nada

“Quando você atualiza informações, nós normalmente mantemos uma cópia de segurança da versão anterior, por um período razoável de tempo, para possibilitar a volta à versão anterior daquela informação”.

3 Qualquer um pode dar uma olhada em suas confissões íntimas

“… nós não podemos e não garantimos que o conteúdo de usuário que você postar no site não será visto por pessoas não autorizadas. Nós não nos responsabilizamos pela frustração de quaisquer ajustes de privacidade ou medidas de segurança contidas no site. Você entende e reconhece que, mesmo após a remoção, cópias de conteúdo do usuário podem permanecer visíveis em páginas reservadas e arquivadas, ou se outros usuários tiverem copiado ou armazenado seu conteúdo de usuário”.

4 Nosso perfil de marketing de você será insuperável

“O Facebook pode também coletar informações sobre você a partir de outras fontes, tais como jornais, blogs, serviços de mensagens instantâneas e de outros usuários do serviço Facebook, através da operação do serviço (p.ex., marcas de fotos), para prover a você a informação mais útil e uma experiência mais personalizada”.

5 Optar por sair não significa optar por sair

“O Facebook se reserva o direito de enviar a você notificações sobre sua conta, mesmo que você opte por sair de todas as notificações voluntárias por email”.

6 A CIA pode examinar as coisas quando ela achar que deve fazê-lo

“Ao usar o Facebook, você está consentindo que seus dados pessoais sejam transferidos para os Estados Unidos e lá processados… Nós podemos ser obrigados a expor informações de usuários, de acordo com requisições legais, tais como intimações e ordens judiciais, ou em concordância com as leis aplicáveis. Nós não revelamos informações até que tenhamos uma crença de boa-fé de que uma requisição de informação por imposição legal ou litigantes particulares atendam os padrões legais aplicáveis. Além disso, nós podemos compartilhar informações de contas e outras mais, quando acreditamos que isto é necessário para estar em concordância com a lei, para proteger nossos interesses ou propriedade, para prevenir fraudes ou outras atividades ilegais perpetradas através do serviço do Facebook, ou usando o nome do Facebook, ou para prevenir dano corpóreo iminente. Isto pode incluir o compartilhamento de informações com outras companhias, advogados, agentes ou agências do governo”.

2 Responses to “Sites de relacionamentos”

  1. [...] Hodgkinson, no The Guardian, que me abriu os olhos para certas realidades. Traduzi-o e publiquei-o aqui. Entretanto, ainda estou aguardando a autorização do autor ou do jornal para que este trabalho [...]

  2. [...] da tradução do artigo de Tom Hodgkinson sobre a falácia do Facebook. Agora a página é oficial. Leia, reflita e tome uma atitude, [...]

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