Ao chegar em casa, no começo da tarde de hoje, ouvi trechos de músicas características das festas juninas bem nordestinas: músicas de Luiz Gonzaga, tocadas em sanfona, com acompanhamento de zabumba e triângulo.
Pensei, inicialmente, ter deixado o computador tocando alguma coisa, ou que ele tivesse começado a tocar aleatoriamente, em virtude de algum evento programado. Depois, verifiquei tratar-se de uma escolinha de ensino fundamental que fica exatamente por trás de minha casa, na cidade de Areia-PB.
Daí entendi a coisa: embora eu não tivesse prestado atenção, esses sons já vinham se repetindo desde a última semana – a primeira do mês de junho – e sempre no início das aulas. Em suma, a escola tem recebido seus alunos para as aulas ao som do mais puro Pé-de-Serra, que sempre esteve presente nos embalos juninos de minha terra.
E fiquei feliz de ver que ao menos uns poucos ainda preservam o que é realmente cultura, proporcionando a seus alunos algo desse preciosismo que é a transmissão de tradições e que é uma das principais características da riqueza de um povo.
Hoje, quando se fala em festa junina, em geral resumido sob o título de São João (embora este seja apenas um dos festejados santos católicos do mês, juntamente com Santo Antônio e São Pedro), pensam logo os mais jovens em festas tresloucadas que misturam ritmos como o que chamo de forró cearense — que parece ser um misto de forró com o tal sertanejo mato-grossense — ou uns mistos de forró com pagode ou coisa parecida de origem baiana. No geral, apelidaram esses sons de forró de plástico.
Nada contra quem quer que curta o barato. Só acho que, se a festa se diz junina e o local de comemoração é tipicamente nordestino, e ainda e mais importante, se o grande patrocinador é o poder público, por que não concentrar o esforço e os investimentos em típicas bandas locais, gerando renda localmente, com os inúmeros valores locais, que esperam por oportunidades para exporem seus talentos?
Soube eu que quem abriu a festa de Caruaru (a Capital do Forró, acho que mais por ironia) foi a banda de sei-lá-o-quê baiana Chiclete com Banana. Como assim? Capital do Forró, em época de festas juninas, num suposto São João de 45 dias (pra rivalizar com o de Campina Grande, de 30 dias), quem abre o evento é uma banda baiana que nada tem a ver com forró? Se fosse em Feira de Santana, eu entenderia e aceitaria placidamente; mas em Caruaru? E ao lado do Museu do Forró! Fosse eu católico, e diria que o esqueleto do Rei do Baião teria se contorcido todo no túmulo – mas não de alegria!
Parece que os organizadores desses festivais nordestinos – principalmente Campina Grande e Caruaru – rezam definitivamente pela cartilha do velho ditado: “Santo de casa não faz milagre”, e seguem promovendo eventos e mais eventos em que a participação cultural escasseia cada vez mais. No mais das vezes, é preciso que alguém de outras regiões de nosso país, ou mesmo do exterior, descubra esses talentos para que eles possam ser considerados como existentes, aqui.
Resta esperar, porque o que vejo é a configuração de um momento de transição de culturas. Os tempos de Gonzagão, de Dominguinhos, do Trio Nordestino, dos Três do Nordeste e de tantos outros expoentes da cultura nordestina com Sanfona, Zabumba e Triângulo, já se foram. Mas o tempo atual, este desta aparente transição, ainda não se definiu, e uma definição parece ainda estar bem longe, haja vista que o que tanto valor recebe hoje, provavelmente nenhum valor terá mais no próximo São João – seja o de Campina Grande, seja o de Caruaru, seja o de quem mais festeje junho no meu cada vez menos rico Nordeste.